A IMPORTÂNCIA DA DIGITALIZAÇÃO DE DADOS PARA A PESQUISA EM LINGUÍSTICA

Vivemos em uma era digital, onde o desenvolvimento tecnológico permite cada vez mais o acesso a informações. Atualmente está cada vez mais raro encontrarmos registros físicos, como discos de vinil, fitas cassete e filmes em VHS. Esse é um fenômeno que se verifica tanto nas relações interpessoais quanto nas atividades realizadas pela maioria das pessoas: o foco no meio virtual. Objetos de mídias analógicas, como os mencionados acima, têm importância histórica, visto que podem trazer dados valiosos que foram originalmente e unicamente registrados em processo analógico. Esse é o caso do acervo de dados do Projeto NURC.

O Projeto da Norma Urbana Linguística Culta, também conhecido como Projeto NURC, teve início em 1969 com o objetivo de documentar através de gravações de áudio e estudar a norma falada culta de cinco capitais brasileiras: Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Essas capitais foram selecionadas a partir de dois critérios: a cidade teria que ter pelo menos um milhão de habitantes e estratificação social suficiente para atender às exigências do projeto. O acervo de dados que fazem parte do Projeto NURC têm sido utilizados para a elaboração de um grande número de trabalhos acadêmicos, entre eles dissertações de graduação e mestrado, teses de doutorado, artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais, e trabalhos apresentados em encontros científicos por todo o mundo. Com isso, torna-se evidente a importância do material pertencente aos arquivos do Projeto NURC, utilizado na produção de materiais para o estudo de diversas características da oralidade no ramo da linguística.

Os inquéritos do Projeto NURC foram registrados em fita magnética de rolo, o mesmo material utilizado para o registro de dados nas mais populares fitas cassete e VHS. Entretanto, os registros magnéticos dos inquéritos do Projeto NURC, feitos em fita de rolo, estavam em sério risco de deterioração, pois se tratar de um material que está sujeito a uma série de degradação com o passar do tempo, como, por exemplo, a oxidação. Quanto maior a demora em migrar estes dados para meios digitais, maior era o risco de perda desse registro. Por esse motivo, se tornou de extrema importância que este valioso material fosse resgatado o quanto antes, através da digitalização de seus dados analógicos, garantindo assim a sua preservação e utilização no futuro. Assim surgiu o Projeto NURC Digital.

Para a digitalização desses dados, foi importante se utilizar técnicas recomendadas por órgãos internacionais, com metodologias propostas pelo Open Archival Information System (OAIS) e pelo Comitê Técnico da International Association of Sound and Audiovisual Archives, que são modelos de referências adotados pelos bancos digitais de dados linguísticos mais recentes para objetos digitais, com o objetivo de garantir a preservação e a qualidade dos arquivos de áudio originais.

O formato digital é algo relativamente novo e muitos dados utilizados em pesquisas linguísticas recentes ainda estão no formato físico, cujo tempo de vida é consideravelmente menor. Para evitar que se perca dados importantes e também visar sua maior acessibilidade, como no caso dos inquéritos do Projeto NURC, o melhor a fazer é passá-los para o formato digital. Além da durabilidade, a digitalização permite a rapidez e facilidade no acesso e na disseminação; desenvolvimento de sistemas de busca a informações dos dados; segurança, preservação e durabilidade do acervo; transparência das informações e, é claro, a redução de espaço físico do armazenamento desses dados.

Outro aspecto importante da digitalização, é o fato de ela permitir criar uma camada adicional de informação, inexistente nas mídias analógicas. Nos dados analógicos, se queríamos adicionar alguma informação acerca da informação, teríamos que gerar um novo produto com determinadas informações. Um livro para explicar um livro, por exemplo. A codificação digital, pelo contrário, permite associar a esses dados outras informações, seria algo como “informações digitais sobre informações digitais”, isso sem que elas alterem ou interfiram na reprodução desses dados base, algo inexistente nas gravações analógicas.

O registro digital tem valor ainda mais significativo por possibilitar a do­cumentação e o registro de línguas em perigo de extinção. A importância desse tipo de registro se deve ao fato de que as organizações sociais estão su­jeitas a forças de várias naturezas, que podem resultar na morte de línguas minoritárias. Diante disso, esse tipo de registro é uma questão importante a ser considerada, pois esse é um fator que eventualmente poderia permitir a preservação e perpe­tuação da língua indígena.

Preservar línguas indígenas é garantir que parte da história permaneça intacta e se perpetue como patri­mônio nacional, evitando assim que seja completamente esquecida. A língua diz muito sobre seu povo e é necessário considerar que cada povo tem sua língua, sendo sua preservação altamente necessária, indepen­dentemente do grau de parentesco entre elas, pois se a língua está intimidante ligada à cultura de cada povo, o seu registro digital pode permitir que a bagagem cultural de um povo per­maneça intacta e acessível.

Reimildo Barbosa da Silva

Estudante Bolsista de Iniciação Científica / Teotônio Vilela, AL

Graduando em Geografia-Licenciatura pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), no Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente (IGDEMA). Faz parte do Grupo de Pesquisa Estudos em Fonética e Fonologia (FonUFAL) como aluno bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), atuando no Projeto NURC Digital.

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