Conservar os dados científicos? Mas como isso é feito na Linguística? Tem um exemplo?

Para começar…

Quem não lembra do incêndio que ocorreu no Museu Nacional, localizado na zona norte do Rio de Janeiro, no dia 3 de setembro de 2018? Quem não lembra do impacto com que recebemos a notícia do incêndio deste que era o maior museu de história natural do Brasil? E quem não lembra do desespero de vários pesquisadores que trabalhavam com o acervo do Museu? Caso você não lembre, caro leitor, aqui vão algumas informações para que tenha ideia da dimensão desse trágico acontecimento.

O Museu Nacional, criado por D. João VI em 1818 (havia completado, portanto, 200 anos), era a mais antiga instituição científica do país. O local também havia sido palco de grandes marcos históricos do nosso país: foi o lugar onde a princesa Leopoldina, casada com D. Pedro I, assinou a Declaração de Independência do Brasil, em 1822; foi palco da primeira Assembleia Constituinte da República, em 1890, entre outros acontecimentos.

Além disso, também é importante dizer que o Museu tinha cerca de 20 milhões de itens, como fósseis, múmias, peças indígenas e livros raros. Inclusive, tenho certeza de que você já ouviu falar sobre o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo descoberto na América e que revolucionou os estudos sobre o povoamento do continente americano. Pois é, ele também estava nos escombros do Museu, mas, por sorte, não foi totalmente destruído.

Estou pontuando isso para que pensemos juntos sobre a importância de preservar não só as obras desse museu, mas todas as nossas riquezas culturais e científicas. Um museu é um lugar onde guardamos coisas que são importantes para a história de um país, de uma época e de um povo. Um museu permite a continuação de um conhecimento adquirido por meio de pesquisas, preservação e divulgação de bens materiais e imateriais.

O mesmo acontece com a ciência da linguagem. Existem dados científicos que são importantíssimos e que devemos ter muito cuidado para não os perder. Por isso, precisamos pensar em alternativas para que esses dados sejam conservados.

A ideia do Projeto…

Na Linguística, existe um conjunto de dados em particular que tem uma importância gigantesca para o desenvolvimento dessa ciência: são os dados do Projeto NURC. Esse projeto teve seu início no ano de 1969, e tinha como objetivo descrever e estudar o modo como as pessoas que tinham frequentado alguma instituição de nível superior falavam. As pessoas que participaram desse projeto eram de cinco cidades brasileiras: Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Essas eram, na época, umas das mais populosas do Brasil.

Para dar uma ideia mais clara de como funcionava esse projeto, aqui vão algumas poucas informações. As pessoas que participavam eram entrevistadas e tinham suas falas gravadas em fitas magnéticas de rolo, o melhor instrumento de gravação para a época. Você pode estar imaginando o quanto a tecnologia evoluiu, não é mesmo? Pois é, evolui diariamente e só nos damos conta quando paramos para refletir acerca do que se usava no passado.

Continuando onde estávamos, existiam três tipos de entrevistas: em um deles, a pessoa entrevistada mantinha um diálogo com o entrevistador; no segundo tipo, duas pessoas conversavam entre si sobre algum tema que fosse interessante para as duas; e no terceiro tipo, as pessoas que seriam gravadas estavam participando de alguma atividade mais formal, como dar uma palestra, uma aula, etc.

Eu sublinho a importância desse projeto para a Linguística. É bem possível que essa ciência não teria chegado onde está hoje no Brasil sem os avanços que foram possibilitados por causa desse projeto. Inúmeros trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado foram feitos usando os dados desse Projeto. Para te dar um exemplo, na década de 1980, um grupo de linguistas deu início a um grande estudo que tinha o objetivo de descrever como era o português culto falado nas diversas regiões do Brasil. Esse estudo, que ficou conhecido como Gramática do Português Culto Falado no Brasil, também usou os dados do NURC.

É importante que você saiba que várias áreas da Linguística usaram esses dados, como a área dos estudos em fonética, que estuda o modo como nós produzimos os sons de nossa fala; a área dos estudos em análise da conversação, que estuda os mecanismos que organizam as nossas conversas cotidianas; a área da linguística textual, que estuda o processo de produção e compreensão de textos orais e escritos, etc.

Mas esses dados científicos, assim como quaisquer outros, podem se perder por causa do tempo que eles têm. Hoje nós temos diversas formas de salvar, nos recursos digitais, documentos e arquivos que são importantes para nós. Mas esses dados do Projeto NURC estão contidos, como falado acima, em fitas de rolo. Portanto, para evitar possíveis perdas, seria importante propor alguma estratégia para preservar esses dados. Foi a partir dessa constatação que surgiu a ideia do NURC Digital.

Tudo ao nosso redor está ficando digital. Você já percebeu isso, não foi? Já podemos solicitar um transporte e fazer pedidos de comida por meio de aplicativos, já podemos fazer transações bancárias sem sair de casa etc. Diante disso, um grupo de pesquisadores pensou em criar um banco de dados digitais para os dados do NURC a que todos os linguistas do Brasil e do mundo pudessem ter acesso.

Para isso, esse grupo de estudiosos pesquisou e pensou nos melhores caminhos para digitalizar, anotar e arquivar os dados do Projeto NURC. Tudo isso para permitir, justamente, que os linguistas de hoje e os do futuro tenham acesso a esses dados e garantam, cada vez mais, o desenvolvimento da Linguística no Brasil.

Perceba o quanto a tecnologia, se estiver aliada com a ciência bem-intencionada, pode trazer inúmeros benefícios para o nosso país. Por exemplo, já existem professores e professoras de língua portuguesa, no Brasil, formados em Letras, que utilizam os dados do NURC para trabalhar com seus estudantes o modo pelo qual se organizam os gêneros textuais da oralidade.

Acredito que este texto tenha deixado clara não só a importância do Projeto NURC Digital, mas também a importância de garantir a continuação da ciência em um mundo cada vez mais digital. O NURC Digital, que permitiu, inclusive, o arquivamento dos dados do NURC em bancos de dados internacionais de grande relevância, só foi possível por causa de investimentos no desenvolvimento da ciência em nosso país.

Para finalizar, acrescento que uma das propostas do NURC Digital foi disponibilizar os seus dados para a comunidade científica e, ao mesmo tempo, sugiro a mesma metodologia para a criação de outros bancos de dados digitais que possam vir a ser criados no futuro, garantindo, assim, um fazer democrático e acessível. Se você quiser conhecer um pouco mais do Projeto NURC Digital, acesse os endereços abaixo.

 

http://www.fale.ufal.br/projeto/nurcdigital/

http://www.fale.ufal.br/grupopesquisa/fonufal/produtos/nurc-digital/

http://www.fale.ufal.br/grupopesquisa/fonufal/portal-nurc-digital/

Arthur R. B. Terto

Teoria e Análise Linguística; Linguística Documentativa. / Maceió, AL

Aluno graduando do curso de Letras-Inglês da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). No período agosto de 2018/agosto de 2019, trabalhou no desenvolvimento do Projeto NURC Digital, como aluno bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI). Atualmente é aluno bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), com projeto de pesquisa que se situa nas áreas de fonética, prosódia e metadiscurso. É membro do grupo de estudos em fonética e fonologia da UFAL, Fonufal.

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