Como fala, lê e escreve o universitário?

Políticas públicas, como o programa de Expansão com Interiorização de Universidade Pública (EXPANDIR), criado em 2005, e o programa de apoio a planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), foram implementadas com o objetivo de reduzir assimetrias, especialmente as desigualdades regionais e espaciais na oferta da educação superior pública no Brasil. Os programas EXPANDIR e REUNI levaram à criação de 18 novas universidades federais, das quais seis foram no Nordeste, além da criação de 182 campi universitários (relatório A democratização e expansão da educação superior no país 2003-2014, 2015). O cenário da educação pública em nível superior no Nordeste do Brasil mudou sensivelmente entre 2003 e 2010, com as políticas públicas de expansão e interiorização das universidades públicas, levando não só a uma ampliação no número de vagas na educação superior, como também à interiorização da educação superior pública, contribuindo para o combate a desigualdades regionais e espaciais.

Dentre as ações executadas que mais contribuíram para mobilidade estudantil, destacamos o Sistema de Seleção Unificada (SiSU) e a Lei de Cotas, que possibilitaram a ampliação da diversidade regional, cultural e étnica nas instituições de ensino superior do Brasil. Os efeitos práticos da mobilidade estudantil são uma multiplicidade de perfis sociais dentro das universidades, estudantes de zonas rurais e urbanas de vários estados do Brasil, e de classes socioeconômicas diferentes em um mesmo espaço de convivência, compartilhando práticas regionais, culturais e linguísticas. Os estudantes de diferentes regiões, em contato com outra variedade, adaptam seu modo de falar de acordo com as necessidades que esse novo lugar exige; e as exigências de ajustes da língua estão relacionadas não só à nova região, mas também ao local em que o contato acontece, a universidade, que prevê expectativas sociais quanto ao seu novo papel, o de universitário. Os impactos linguísticos da expansão interferem na organização acadêmica e desempenho: dificuldades com leituras e escrita são problemas recorrente apontados pelo universitário brasileiro.

Esta dificuldade se torna mais acentuada com a recente democratização do acesso à educação superior e o ingresso de um novo perfil de aluno, formado por aqueles que tinham até então o acesso à universidade negado, a exemplo dos jovens oriundos de escolas públicas e de baixa renda, e que só após a criação das mais recentes políticas passaram a ter possibilidade de ingresso: o “novo aluno”. Matriculados, na maioria, nos cursos noturnos, esses alunos acabam submetidos à realidade de retroalimentação do mercado de trabalho, haja vista a dificuldade de se manterem em um curso diurno, pois têm que trabalhar. O diploma superior se caracteriza como uma possibilidade de ascensão nas vagas de trabalho de nível médio. Enquanto isso, o “aluno clássico”, aquele que historicamente ocupou as cadeiras nas universidades, e por ter estrutura familiar e social que o ampare, encontra na vida acadêmica um caminho para a manutenção do status social, normalmente nos cursos diurnos e de maior prestígio.

Assim, as mudanças que ocorreram nas universidades públicas federais não interferiram somente na estrutura social das comunidades acadêmicas e dos bairros em que elas estão situadas; interferiram também na língua, decorrente do acesso das classes desfavorecidas socialmente, assim como a mobilidade acadêmica dos estudantes de diversas regiões geográficas brasileiras: cada estudante carrega consigo valores, culturas, normas, modos de falar, repertórios e traços linguísticos típicos de seu lugar de origem. E em um espaço coletivo como é a universidade, essa diversidade de formas se encontra e faz com que a língua mude acompanhando todas as mudanças que ocorrem no meio social, instaurando um cenário de conflito linguístico, que demanda políticas de permanência que possam tornar mais igualitárias as oportunidades não somente sob a perspectiva financeira, mas também pedagógica, uma vez que, recentemente, os discursos de que a educação superior é deficiente têm aumentado, levando até à indicação de que os resultados negativos no cenário educacional são em grande parcela decorrentes das consequências linguísticas da mobilidade estudantil.

Estudos descritivos revelam que a fala e a escrita dos brasileiros se distanciam daquilo que é pregado pela tradição normativa. Esta distância tem se tornado ainda mais assimétrica na universidade, como resultado da mobilidade estudantil.

Em sendo a língua dinâmica e modelada pelo contexto social, descrever o perfil linguístico do universitário é o primeiro passo para pensar em estratégias efetivas para atuar no problema das dificuldades em leitura e escrita, que interferem no desempenho no curso, levando à retenção e abandono. Para tanto, é preciso que sejam conhecidos previamente os padrões de uso linguístico para que se possam planejar ações pedagógicas, na perspectiva da pedagogia culturalmente sensível.

A partir da documentação linguística de estudantes da Universidade Federal de Sergipe, para fins de constituição de banco de dados para suporte à descrição linguística (Banco de Dados Falares Sergipanos), são pensadas ações para reduzir a assimetria linguística. A parametrização gramatical (fonológica e morfossintática) da variedade linguística da comunidade acadêmica da Universidade Federal de Sergipe tem subsidiado ações de planificação linguística, como cursos de leitura e escrita acadêmica (LEIA-SE!), estratégias de leitura e revisão textual, do mesmo modo que a identificação de perfil de proficiência em leitura e em escrita considerando aspectos psicolinguísticos, como o custo de processamento e produtividade, o que tem contribuído no planejamento de avaliações e de atividades que demandem habilidades ativas de leitura e escrita, como TCC e avaliações. Paralelamente, têm sido realizadas ações de sensibilização para a diferença linguística, que precisa ser reconhecida como tal, como ponto de partida para ações propositivas em relação às demandas de retenção e evasão acadêmicas.

Raquel Meister Ko. Freitag

Sociolinguística / São Cristóvão, SE

Professora do Departamento de Letras Vernáculas, do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Sergipe. Graduada em Letras, mestre e doutora em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina, área de concentração Sociolinguística.

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