Linguística de Corpus: Documentação da Variedade da Libras da Grande Maceió

No ano de 2002, foi sancionada a Lei No 10.436, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, como forma de comunicação e expressão, de sistema linguístico com estrutura gramatical própria, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. Três anos
depois, foi aprovado o Decreto No 5.626/2005, que regulamenta a Lei de LIBRAS e, de forma mais ampla, este documento estabelece diretrizes legais para a acessibilidade da pessoa surda em diversas instâncias sociais, dentre elas, a educacional.

Como consequência disso, diversos cursos de Letras-Libras foram criados no Brasil, cerca de 27, e isso acaba impactando sobre a formação do pesquisador e da pesquisa envolvendo a Libras. Esta língua que tem suas primeiras pesquisas no Brasil no final da
década de 1980, agora, por uma questão de política pública e linguística, passa a gozar de vasto espaço na academia. Em função disso, surge a necessidade de se conhecer a língua em termos linguísticos, o que demanda a sua documentação para posterior descrição.

Diferentemente da história das línguas orais, que mesmo antes dos gravadores, poderiam (e foram) registradas/documentadas por meio da escrita, as chamadas línguas de sinais, até recentemente, não podia ser documentadas por falta de recursos tecnológicos adequados para este fim. Neste sentido, se quisermos saber como era a Libras usada no Brasil há 10 anos, certamente teremos bastante dificuldade pela ausência de corpora que tenham documentado esta língua. Isso traz consequências bastante relevantes para a Linguística Brasileira em termos de desconhecimento de uma língua brasileira ainda pouco conhecida pela Ciência e, em termos sócio-histórico-culturais, podemos mesmo dizer que há um apagamento do que foi a língua em tempos passados, mesmo que não haja um espaço de tempo tão significativo (20, 30 anos passados).

Este projeto de pesquisa, portanto, surge como repercussão de nossa experiência em documentação da Libras, desde 2014, quando participante do PIBIC (até 2018), em que, por quatro anos, fomos confrontados com o desafio de coletar dados da Libras, editá-los e, principalmente, transcrevê-los. Dessa forma, esta investigação tem por propósito discutir as metodologias e mecanismos de documentação da Libras, além de elaborar estratégias teórico-metodológicas fundamentadas para o registro deste Língua a partir da documentação da Libras referente à variedade maceioense.

Para Johnston (2009, p. 18) apud Hereweghe e Vermeerberge (2012, p. 1033), a linguística do corpus baseia-se no pressuposto de que o processamento de grandes quantidades de textos anotados pode revelar padrões de uso e estrutura da linguagem não disponíveis por dados de intuição ou mesmo por uma análise linguística de um texto particular, o que implica, necessariamente, uma organização teórico-metodológica em termos de coleta, tratamento e armazenamento dos dados.

Já para Sardinha (2000), a Lingüística de Corpus ocupa-se da coleta e exploração de corpora, ou conjuntos de dados lingüísticos textuais que foram coletados criteriosamente com o propósito de servirem para a pesquisa de uma língua ou variedade lingüística. Como tal, dedica-se à exploração da linguagem através de evidências empíricas, extraídas por meio de computador (SARDINHA, 2000).

A documentação de uma língua passa, necessariamente por um planejamento que vai além dos aspectos linguísticos. Tradicionalmente, desde os tempos mais remotos (Antiguidade), se tem conhecimento de registros de línguas orais; os sistemas de escrita e mais tarde os gravadores de áudio sempre favoreceram a documentação de línguas cuja produção dá-se por meio da emissão de voz. Quando nos atemos às línguas de sinais, apenas por meio dos registros em vídeo é que se pode captar essas línguas, dada a sua modalidade de produção, que é visuogestual. Mesmo com o surgimento do aparato tecnológico capaz de captar a produção de fala dos sinalizantes, pouco há registrado de 30 anos para trás, por, basicamente, dois motivos: i) historicamente, por longa data, os surdos foram proibidos de usarem as línguas de sinais; ii) até a década de 1990, os dispositivos tecnológicos para armazenamento de vídeo eram extremamente perecíveis.

Este projeto de pesquisa se apresenta com uma proposta de pesquisa que tem por finalidade documentar a Libras, por um lado, e, por outro, aprimorar os recursos e estratégias para o registro desta língua justamente quando do processo de documentar. A documentação de uma língua, em certa medida, já é parte da análise linguística, uma vez que o pesquisador necessita tomar decisões acerca das transcrições, das anotações, as quais são baseadas em critérios, necessariamente, linguísticos. Com esse propósito, descreveremos a metodologia referente à coleta dos dados, como se vê a seguir.

A pesquisa será realizada com a participação de trinta e seis pessoas surdas, todas maiores de idade, independente de escolarização, desde que tenha fluência em Libras, ou seja, 10 pelo menos 10 anos de contato constante com a língua. Embora o sexo/gênero não seja sociolinguisticamente relevante para os fins desta coleta de dados, tentaremos, à medida do possível, fazer os registros com informantes do mesmo sexo/gênero, visando melhor sistematização dos dados para pesquisas futuras. Todos os informantes devem ser da grande Maceió ou aqui residir há pelo menos 10 anos.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Decreto/D5626.htm>. Acesso em: 24 jan. 2019.
BRASIL. Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm>. Acesso em: 24 jan. 2019.
BRASIL. Presidência da República. Decreto n. 7.387, de 09 de dezembro de 2010. Institui o Inventário Nacional da Diversidade Linguística e dá outras providências. Brasília, 2010. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2007-2010/2010/Decreto/D7387.htm>. Acesso em: 24 jan. 2019.

IPHAN. INDL: Pesquisa coleta dados para o Inventário Nacional de Libras. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/indl/>: Acesso em: 24 jan. 2019.
OLIVEIRA Jr. M. Técnicas de recolha de dados orais para documentação linguística. In: LEITE, C. T. e SILVA, J. B. Línguas no Brasil: coleta, análise e descrições de dados. Mceió: EDUFAL, 2013.

QUADROS, R.M. Documentação da Língua Brasileira de Sinais. A Língua de Sinais brasileira, Política Linguística e a Libras e Documentação da Libras enquanto política linguística.
QUADROS, R. M. A transcrição de textos do Corpus de Libras. Revista Leitura, Maceió V.1 no 57 – jan/jun p. 8 – 34, 2016.
SARDINHA, TONY BERBER. Lingüística de Corpus: Histórico e Problemática. DELTA v.16 n.2. São Paulo 2000.
SARDINHA, Tony Berber. Lingüística de Corpus: histórico e problemática. DELTA, São Paulo , v. 16, n. 2, p. 323-367, 2000.

VAN HERREWEGHE, M., E VERMEERBERGEN, M. (2012). Data collection. Sign language: an international handbook.

Sergio José da Silva

Teoria e Análise Lingusitica / Maceió, AL

Possui graduação em Licenciatura de Letras-Libras (Universidade Federal de Alagoas – UFAL, 2018). Foi pesquisador bolsista de Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC) no Projeto Corpus de Libras: amostra de Maceió na UFAL (2014 – 2018), coordenado pelo Prof. Dr. Jair Barbosa da Silva. Especializando em Libras – Instituto multidisciplinar de Alagoas – IMAS. Ministrei de Libras iniciação para ouvintes (IRES/AAPPE), 2017. Professor de Libras básico 1 e 2 como L2 para ouvintes (Voluntário) na UFAL/Sinimbú, 2017 e proficiência no Ensino da LIBRAS – PROLIBRAS / 2015. Ministrando de Libras básico para ouvintes (Voluntário) no Instituto Federal de Alagoas – IFAL

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