O que as crianças dizem sobre ‘tu’?

E mesmo tão pequeno, ele fala, ele nos entende. Como assim? Esse questionamento é muito comum, tanto do ponto de vista dos pais, da família, como das demais pessoas que convivem com bebês e crianças. Nesse breve texto, buscaremos discutir essa inquietação e explanar sobre algumas questões que permeiam esse universo tão instigante: o mundo da linguagem, em especial, o momento com o qual uma criança adentra nesse mundo, ou seja, o processo natural pelo qual uma criança adquire uma língua e, pretendemos ainda, apresentar algumas considerações iniciais sobre um fenômeno linguístico que pode ser estudado através da fala das crianças.

Muitos estudos já comprovaram que a capacidade de falar nos distingue de todos os outros animais, no entanto, essa capacidade carrega consigo uma peculiaridade, pois ao mesmo tempo em que é comum a todos, natural, sem processos de correção ou de instrução, é também misteriosa quanto a sua complexidade e funcionamento.

No âmbito das diversas teorias que buscam dar conta dos fenômenos linguísticos no processo de aquisição de uma língua, adotamos a teoria gerativa, proposta pelo linguista americano Noam Chomsky (1995 e seguintes). De acordo com esse modelo teórico, apenas os humanos são dotados de uma Faculdade da Linguagem, ou seja, de uma estrutura e organização na mente capaz de conter toda a complexidade e as propriedades essenciais da linguagem.

Ainda de acordo com o pensamento de Chomsky, existe, alocado na mente/cérebro de todo falante, uma espécie de dispositivo responsável pela aquisição de uma língua. O autor explica esse dispositivo através de algo como uma Gramática Universal (GU), que deve ser entendida como uma caracterização da capacidade de adquirir uma língua através de algo geneticamente e biologicamente determinada. Essa GU permitiria que qualquer falante adquirisse uma ou mais línguas a partir da experiência linguística vivida nos primeiros anos de vida.

Vale destacar que essa experiência com a qual a criança tem acesso é essencialmente formada por expressões possíveis da língua, e é a partir dessa informação positiva que a criança desenvolve sua língua particular. Em nenhum momento a criança é exposta a expressões negativas, ou seja, ela não possui informação acerca das expressões que não são possíveis em sua língua.

Como observamos, a capacidade de adquirir uma língua é extremamente rica, entretanto do ponto de vista dos fenômenos linguísticos, das frases, das palavras, dos sons, torna-se ainda mais complexa. Dentro da proposta de Chomsky (1995 e seguintes), conseguimos analisar o que a criança diz do ponto de vista da estrutura de sua língua. Nesse sentido, buscamos apresentar aqui algumas inquietações sobre um fenômeno linguístico do português a partir da fala de crianças brasileiras: a utilização ou não de pronomes de 2ª pessoa do singular, tanto na função sintática de sujeito, quanto na posição de objeto. Como podemos observar nos exemplos a seguir:

  1. a) Tu é linda, mãe. b) Você é linda, mãe.
  2. a) Eu amo tu. b) Eu amo você.
  3. a) Tu quer bolo? b) Você quer bolo?

 

Observando os exemplos acima, podemos perceber que tanto o uso do “TU” quanto o do “VOCÊ” são possíveis e comumente utilizadas pelos falantes do português. Verificamos que as duas formas pronominais podem funcionar enquanto sujeito ou enquanto objeto em todos os exemplos, as diferenças em relação ao uso parecem acontecer, apenas, de acordo com o nível de formalidade do uso da língua.  Sendo assim, acreditamos que, durante o processo de aquisição da língua portuguesa, construções como as apresentadas em 1 a e b, 2 a e b e 3 a e b possam ocorrer naturalmente na fala das crianças, como ocorre na fala do adulto.

Apesar de nenhum dos exemplos acima nos causar estranhamento do ponto de vista do sentido, da interpretação do que está sendo dito, algumas pesquisas ainda argumentam a favor do “desuso” do “tu”. Como se esse pronome não mais existisse na língua portuguesa ou que apenas pertencesse a regiões específicas. Segundo Menom (2000), no português do Brasil, o uso de ‘tu’ ficou restrito ao extremo Sul do país e a alguns pontos na região Norte, ainda não identificados de forma suficiente. A autora ainda argumenta que em quase todo o território brasileiro, ele foi substituído por ‘você’ como forma de intimidade.

Ainda em defesa do desaparecimento do ‘tu’ na língua portuguesa falada no Brasil, Cuesta (1980, p. 488) afirma que “o tu, que soa muito mal ao ouvido brasileiro, conserva-se apenas na sua forma de sujeito no Rio Grande do Sul e no Maranhão”.  A partir de afirmações como essas, nos inquietamos no sentido de tentar entender o que acontece com esse pronome no português. O ‘tu’, de fato, caiu em desuso? ‘Tu’ foi substituído por ‘você’ em todos os contextos de uso? O uso do ‘tu’ ficou restrito à região Sul e ao Maranhão? Como as crianças fazem referência a segunda pessoa do singular durante os primeiros anos de vida? O que as crianças dizem ao se referirem a um coleguinha da escola ou a um amigo no parque durante uma brincadeira?

A partir desses questionamentos, conseguimos perceber o quanto a fala da criança pode ser capaz de revelar sobre a língua como um todo. Se a criança adquire uma língua a partir da experiência linguística vivida, os dados que elas nos apresentam podem e devem ser considerados como pistas importantíssimas para entender sobre o funcionamento da língua.

 

 

Referências:

CHOMSKY, N; LASNIK, H.. The Theory of Principles and Parameters. In: CHOMSKY, N. The minimalist program. Cambridge, Massachusettes : The MIT Press, 1995.

 

CHOMSKY, N. Novos horizontes no estudo da linguagem. In: D.E.L.T.A. vol. 13, n. especial, 1997a, pp. 73-92.

 

CHOMSKY, N. Minimalist Inquiries: The Framework. In Step by step: Essays on minimalist syntax in honor of Howard Lasnik, eds. Roger Martin, David Michaels, & Juan Uriagereka, 89–155. Cambridge, MA: MIT Press, 2000.

 

MENON, O. P. da S.. Clíticos e possessivos em Curitiba: implicações para o ensino. In: Pesquisa e ensino da língua: contribuições da sociolinguística. Anais do II Simpósio Nacional do GT de sociolinguística da ANPOLL, 23-25 de outubro de 1995, UFRJ, Timing Editora, UFRJ, Curso de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, CNPQ, 1996.

 

 

 

 

Emanuelle Albuquerque

Professora/ Linguista / Garanhuns, PE

Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Alagoas (2008), mestrado em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Alagoas (2010). Atualmente cursa doutorado em Linguística no PPGLL-UFAL e é professora assistente e coordenadora geral dos cursos de graduação da Unidade Acadêmica de Garanhuns, da Universidade Federal Rural de Pernambuco.Tem experiência na área de Língua Portuguesa e Linguística, atuando principalmente nos seguintes temas: aquisição da linguagem, Linguística Histórica, Semântica e Sociolinguística.

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