Como as crianças começam a falar?

O nascimento de um bebê traz à família uma série de descobertas e angústias relacionadas ao pleno desenvolvimento intelectual e físico desse novo membro da família. Com o passar dos meses, os pais vão se encantando com as pequenas conquistas e se habituando com elas na doce espera das que estão por vir. O dia-a-dia da mãe com seu bebê é muitas vezes árduo e cansativo, horas de sono perdidas, dores pela amamentação, cuidados diários com a limpeza e o bem-estar do recém-chegado membro da família.
Certamente uma das conquistas mais comemoradas pelos adultos que acompanham uma criança é perceber que elas já conseguem falar, as tão esperadas primeiras palavras (mamãe/ papai) não são de fato preferências de seus pequenos por seus pais e ou mães, são termos que numa escala de dificuldade são as mais simples de serem usadas pelas crianças .
Dentre as inseguranças típicas dos papais e mamães de primeira viagem está o fato de não saber exatamente o que o bebê está solicitando com o choro, quais são as suas necessidades para assim conseguir minimizar a angústia do pequeno.
Embora sem o mesmo sentimento fraterno envolvido, as produções linguísticas dos bebês (choros, grunhidos, sons emitidos, gesticulações e etc.) também são de interesse de vários estudiosos da Linguística, uma vez que essas são as primeiras formas de comunicação desses indivíduos com o meio externo e seus pares.
Um fato bastante intrigante é que desde muito novas, antes dos três anos de idade, as crianças conseguem construir sentenças estruturalmente complexas como a apresentada no exemplo abaixo:

(1) a. Eu vou ver esse daqui. Esse, eu vou ver.
b. Mãe: quem deu a boneca?
Criança: a boneca, foi o papai que comprou na loja.

Percebe-se que na sentença produzida pela criança temos todos as funções sintáticas preenchidas, além de termos uma inversão de ordem da posição do objeto direto (a boneca) propositalmente feita pela criança, o que demonstra que ela consegue transitar por estruturas sentenciais mais simples e mais complexas na mesma situação de comunicação antes mesmo de conseguir dominar outras habilidades como comer sozinha, ou mesmo andar sem tropeçar, isso nos mostra o quanto a língua é essencial para o crescimento intelectual dos seres humanos e apresenta que enquanto seres sociáveis que somos temos a necessidade de nos comunicarmos com eficiência desde muito cedo.
Por essa razão, entender como as crianças começam a falar tem sido objetivo de estudos da Linguística com perspectivas teóricas diversas. Historicamente, os primeiros estudos feitos sobre a fala das crianças foram feitos por pais linguistas que acompanhavam o desenvolvimento das crianças diariamente e faziam anotações das evoluções cotidianas, os chamados diaristas.
E, mesmo diante da evolução da ciência Linguística como um todo, os questionamentos daqueles pesquisadores ainda permanecem, como por exemplo: como ocorre a aquisição de uma ou mais língua pelas crianças? Quais são os passos que elas seguem para se tornarem falantes de uma língua? Há fatores que impulsionam ou retardam esse processo?
Existem explicações diferentes sobre esse processo, num passado não muito distante os pesquisadores acreditavam que a aquisição ocorria porque as crianças imitavam a fala dos adultos, fazendo cópias fieis aos dados que ouviram. Em contrapartida, outra perspectiva teórica assume que as crianças nascem com um dispositivo biológico típico da espécie humana que os permite adquirir uma ou mais línguas ao mesmo tempo, desde que estejam em contato com os indivíduos da espécie.
Por fim, numa visão teórica distinta o enfoque é dado não no aparato genético da espécie humana e sim à interação entre a criança e os seres mais evoluídos da espécie, mais especificamente, a mãe, é por e pela interação que se dá a aquisição de uma língua.
Independentemente da perspectiva teórica assumida pelos linguistas, todas as pesquisas elegem a fala da criança como sendo o objeto de estudo, pois é através dela que conseguimos fazer análises das produções linguísticas delas e fazer assertivas de como ocorre o processo.
Para capturar a fala das crianças os pesquisadores lançam mão de estratégias de coleta distintas, dentre elas podemos citar dois métodos: o naturalístico e o eliciamento de dados. Pelo primeiro temos uma coleta o mais natural possível, ou seja, quando a criança é filmada realizando alguma atividade típica do seu cotidiano, como comer, brincar ou outra atividade similar.
Já pelo segundo temos uma situação de comunicação controlada e pensada pelo pesquisador para que a criança utilize estruturas pretendidas por ele. Dessa forma, é comum solicitar que as crianças contem histórias ou mesmo participem de teatrinhos para efetuar a coleta.
Existe uma explicação aceita pelos pesquisadores acerca de como ocorre o processo de aquisição de uma língua, é estabelecido uma espécie de calendário com fases que vão se sucedendo umas às outras que vão desde os primeiros meses até a estabilização da gramática da criança.
Assim, nos primeiros meses de vida, no período pré-linguístico, a produção linguística das crianças é feita com balbucios e repetição de sílabas vocálicas, seguidas de sílabas simples em que as consoantes mais comuns são: b, p, m, por essa razão é que costumamos ter construções de sílabas repetidas como mama, papa sendo entendidas como as palavras ditas pelas crianças para se referir à figura dos pais.
Na segunda fase, denominada estágio de uma palavra as crianças olham e apontam para os objetos e usam apenas uma palavra como se fosse uma sentença completa até o momento em que ela começa a produzir a combinação de duas ou mais palavras, mais ou menos por volta dos dezoito meses em que são comuns construções como quer água, quer brinquedo. A fase seguinte é marcada pelas construções com múltiplas combinações em que construções mais complexas como as apresentadas no exemplo (1) havendo o acúmulo de vocábulos ao longo da vida.
Após conquistadas todas as etapas referidas acima dizemos que as crianças são falantes competentes em suas línguas maternas, ou seja, conseguem conversar sobre quaisquer assuntos que sejam condizentes com sua capacidade cognitiva. O interessante é perceber que a aquisição ocorre de maneira simultânea à aquisição de outras habilidades e constitui parte essencial do desenvolvimento intelectual dos pequenos.

REFERÊNCIAS
BARBOSA, Thaysa Oliveira. Inovações no sistema pronominal do PB: a variação entre nós e a gente na posição de sujeito. 2010. Trabalho de conclusão de curso – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Alagoas, Maceió.
COSTA, João; SANTOS, Ana Lúcia. A falar como bebês: o desenvolvimento linguístico das crianças. 2ª Ed. Editora Caminho, Lisboa, 2003.
CHOMSKY, Noam. Novos horizontes no estudo da linguagem e da mente. Tradução Marco Antônio Sant’Anna – São Paulo: Editiora UNESP, 1928.
______. Aspectos da teoria da sintaxe. Coimbra: Armênia Amado, 1975.
DEL RÉ, Alessandra. A pesquisa em aquisição da lingugem: teoria e prática. IN: DEL RÉ, Alessandra (org). Aquisição da lingugem: uma abordagem psicolinguística. 2. ed., 2ª reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2013.
GUASTI, Maria Teresa. Language acqusition: the growth of grammar. Massachussets: Bradford book, 2004.
GROLLA, Elaine; SILVA, Maria Cristina Figueiredo. Para conhecer aquisição de linguagem. São Paulo: Contexto, 2014.

Thaysa Oliveira Barbosa

Teoria e análise linguística / maceió, AL

Graduada em Letras Português/Literatura pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Participou por três anos do grupo PET/Letras da Universidade Federal de Alagoas, desenvolvendo atividades na tríade: pesquisa, ensino e extensão. Mestre em Linguística pelo Programa de Pós- Gradução em Letras e Linguística (PPGLL) pela mesma instituição, com concentração em Aquisição de Língua materna. Possui experiência em ensino de Língua Portuguesa no ensino fundamental, médio e superior. Pós-graduanda em docência e tradução e interpretação em Libras, atualmente professora substituta do Curso de Letras Libras na UFAL. Cursando Doutorado no Programa de pós-graduação em Linguística e Literatura pela UFAL.

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